Então no meio da tarde uma bola corria
solta, livre, deslizando no azul da vida.

Uma bola girava dentro da bola maior:
e nem sabíamos que o planeta era redondo.

Não sabíamos nem precisávamos:
nosso mundo era apenas uma bola
que fazia girar as tardes e nossas vidas.

Estávamos ali contemplando a liberdade:
eu não precisava de Rousseau para saber
que os homens nascem livres e iguais.

Que afinal importava se teu pai estivador
e o meu contabilista? (…) a bola girava:
éramos nós e nossos pés metidos na areia.

Que importava se lá em casa tinha televisão
e na tua um radio antigo? (…) éramos iguais.

Meteram-me no colégio da capital
e tu ficaste dependendo do governo
e não veio a escola e não veio o emprego:
por isso foste para o norte do país,
onde morreste durante um tiroteio
como segurança de supermercado.

Então – impactado – eu precisei ler Rousseau
para saber que os homens nascem livres e iguais.