QUARTO DE DOM HELDER

No quarto de Dom Helder,
as coisas celebram o milagre do sublime
em verniz de simplicidade e compaixão:

as coisas são apenas as coisas
em estado de servir à vida:

a sobriedade tocando o sublime.

(ali nada sobra e nada falta)

Ali, água existe à disposição do copo
o copo ao dispor do corpo e sua sede,

a rede ao regaço, descanso passageiro
e os livros de prontidão para a vigília:

exato concerto clássico: clareza, precisão e equilibro.

O quarto de um homem é ele por inteiro,
posto aqui não haver transmutação do ser em aparência:
num quarto, o homem, em essência, é e nada mais.

O quarto – para o homem – a reconstrução do mundo:
em nenhum outro lugar se pode buscar a felicidade,
aqui, o único inferno é o espelho.

No quarto de Dom Helder não há espelho,
tudo se basta em humildade refletindo amor.