a Mirian de Sá Pereira
Olhos cálidos vislumbram o amanhã
tal a aurora despertando a luz sobre a noite
A bala que atingiu tua cabeça procurava teu cérebro:
este ato bárbaro também guarda sua metáfora:
tudo teria sido evitando se não ousasses pensar.
Mas como não pensar se existo?, recitou um filósofo ocidental
o que o oriente sabia de cor, desde Sócrates e os geniais gregos,
os mesmo gregos que negaram à mulher paridade de tratamento
– mas deram voz à Antígona para questionar o poder.
É que a vida se revela assim: contraditória e bela.
Assim também tal Antígona, queres questionar, Malala
e mostrar ao mundo que não renuncias a teu véu, mas nem ele
nem a burca podem negar a mulher que na menina habita.
(és menina na urdidura de mulher)
Queres – assim como quis Sherazade – romper o ciclo violento
das infinitas noites de ódio que atravessam a história de escuridão
e trazer à luz com tuas mãos flamejantes a beleza dos livros,
a poesia do mundo árabe que o sectarismo tenta tanto abafar.
E por equivalente homeomórfico – na lição de Raimundo Pannikar
– tua voz lembra ao mundo que ocidente e oriente não dividem
o sonho que incensa a natureza humana no hábito de viver.
A liberdade nasce dentro da gente e mesmo nos cárceres ela habita,
porque o sonho é volátil como o vento voando num tapete persa.
─ teus olhos miram oásis no deserto
e neles se descortina o amanhã em paz.