Quando meu pai viajava a São Luís
eu o esperava em Santa Inês
com as maças prometidas.

Parecia que meu pai tinha ido ao paraíso,
não colher o fruto proibido,
mas saciar o mais puro desejo infantil.

Talvez ele nem se desse conta de tão importante missão.
Talvez as comprasse, porque eu gostava
e afinal não custava muito comprá-las:

uma que fosse já bastava
e o menino não ficaria com os olhos tristes.
(aqueles olhos de desejo ardendo em flor)

Não era bem a maçã que eu queria:
era antes o sonho que ela continha

era antes o sonho que ela me dava
na sua carnadura vermelha,

no seu cintilante delírio

de colorir minha vida de menino do interior
que nem conhecia a capital do meu Estado.

O que eu de fato queria da maçã
era a poesia que o mundo me negava.