Quando ler um poema e não entendê-lo,
dê férias a ele e a todo seu desassossego.
Olhe pela janela as nuvens dizendo a paz
ou o cinza declamando a angústia do ser.
Caminhe devagar na praia e busque conchas
como se fora um menino a explorar o nada.
Lembre de repente da morte e da solidão
que habita as pegadas aturdidas da vida.
Se detenha por muito tempo no alarido do dia,
onde o azul escorrega de nossos dedos e rugas.
Pense no amor conquistado ou já perdido
e verás que a essência da vida é cultivar o fugaz.
Voltes para casa e beije tua mulher, teu filho:
acaricie teu cão, o gato que mia manhoso.
Depois volte ao poema e o leia em voz alta
para que os ouvidos ensinam os olhos a ver.
Constate, finalmente, que o poema e a vida
nada ensinam, antes perguntam ferozmente.