É quando a vida se imiscui do humano
que todas as cores cintilam inteira luz
e se alumiam os porões mais íntimos do existir
tal fachos de relâmpagos sobre as tempestades
loucas do desejo de sentir o vulcão da beleza
transbordando o puro na impureza do feto
que traz consigo placenta, soluços e esperança.
Quando não há mais limite entre o horrendo e o belo:
ambos siameses da poesia esmerilada em amarelo-girassol:
fogo escorrendo em larvas grossas na temperatura exata
em que os metais se fundem em danação e total doçura.
E o vento é tanto que se abrem portas, baús, memória:
se arrebentam lençóis e cheiro de alfazema,
na maresia dentro de uma ilha para além de rios e mares
a desembocar no insólito e indizível,
onde mesmo a voracidade da poesia diz tão pouco,
mas só ela pode penetrar com tanta cumplicidade
e tentar, uma vez mais, iluminar o humano:
eis o reino a descobrir: tudo é tão novo:
o que se tem é a fala, a prosa, o vulgar, a vida menor a pulsar:
a matéria-prima com que a poesia há de construir o belo.
Neste lençol encardido, nestes dias de nódoas profundas,
nesta sujeira entranhada, nascerá o sublime, o cristal,
uma sinfonia límpida soprando alucinada
e reinventando o mundo.