Nunca me acostumei com os teus olhos,
dos quais nunca decifrei a cor, sempre
fugidia entre luz e sombra,
como deve ser as coisas de encantamento.
Nem com esse teu jeito de me olhar
que dispensa os sons das palavras
e faz o amor gritar dentro do silêncio
tal uma emanação – e porque emanação –
já não se explica.
Nunca me acostumei contigo ao meu lado.
Vieram os filhos, contas a pagar a correr dos anos:
dividimos o mesmo quarto, a mesma cama,
a repetência do cotidiano
– que dizem traça que esgarça o amor e suas derivações –
Mas sobre o cotidiano, sempre cintilou de ti uma luz desconhecida,
da qual nunca soube o nome, a substância, os elementos químicos.
Desde o dia em que te vi me dispus a nada investigar com cuidado:
segui a lição do vento que desalinhou teus cabelos em meio
a teu sorriso de marfim.
Ainda me espanto com o roçar do teu corpo na epiderme
do meu desejo fabricando fantasias.
O amor é mesmo esse bicho inquieto que habita o reinventar
do vulgar, do puído das frases pueris e ridículas repetindo
a mesma lição pela eternidade afora.
Esse teu sorriso, Bia, de sempre encantar o meu espanto
de te desconhecer todos os dias
é mistério para o qual existo.