a Moacyr Scliar
Escrever um poema depois de Auschwitz é um ato bárbaro.
[Adorno]
Auschwitz é uma noite quase sem fim.
Ali, repousa, de nós, o lado mais sombrio.
Bárbaros para sempre seremos?
Bárbaros sempre fomos.
A história nos condena entre a cruz e a espada.
E em nome de Deus continuamos a guerra.
Bárbaros sempre fomos, repetem os jornais
dia após dia, há décadas, em séculos,
faz milênios, quando não havia jornais.
Mas há que se domar essa fera que nasce tão terna
e tem olhos azuis europeus, olhar de inocência
entre índios dizimados muito antes de Auschwitz.
É preciso domar essa fera (…) e só temos o poema:
o mesmo poema que descreve o Gênesis,
que Cézzane pintou em Cristo no limbo e a Madalena.
Depois de Auschwitz abandonada, liberta para o silêncio,
é possível ouvir dentro do escuro mais denso da noite
Moonlight de um Beethoven inconsolável ao infinito.
O que ficará depois de Auschwitz?
Só o poema ficará depois de tudo,
porque na esperança nasce a manhã:
mesmo onde demore o amanhecer.